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  • Frederico Freitas

As questões geopolíticas de 2022 e seus reflexos no Mercado de Hidrogênio Verde

Por Frederico Freitas


O mercado global já esperava, com certa expectativa, um ano de 2022 com definições de políticas internacionais capazes de apontar alguns rumos para o nascente mercado de Hidrogênio Verde.


Entretanto, o ano começou com o conflito bélico entre Rússia e Ucrânia produzindo uma grande crise energética na Europa, na sequência movimentações do governo dos EUA apontam generosos subsídios para produção de energia limpa, incluindo o Hidrogênio Verde, já no meio do ano o continente Africano “descobre” seu potencial de produção deste vetor energético, o mercado asiático aposta no desenvolvimento tecnológico para reduzir os custos do Hidrogênio Verde e os nossos vizinhos sul-americanos, especialmente o Chile e Colômbia, estabelecem suas metas e largam na frente do Brasil.


Vamos avaliar, em detalhes, estes aspectos:


EUROPA:

Na condição de importante comprador de Hidrogênio Verde, a União Europeia estabeleceu, entre os seus objetivos estratégicos, a missão de exercer forte liderança na definição de normas, regulamentos e demais aspectos técnicos acerca dos critérios conceituais que classificariam o Hidrogênio como "verde", "renovável" e/ou "sustentável".


Em um ambiente internacional com quase uma dúzia de padrões de certificação para o Hidrogênio Verde, a principal missão da UE, no início de 2022, era “ditar” a sua visão conceitual sobre o tema.


Vale lembrar que o objetivo destas certificações é demonstrar o cumprimento dos requisitos definidos no respetivo quadro regulamentar, acreditando a produção de hidrogênio verde e sustentável, além de ser fator gerador para que empresas e/ou consumidores se beneficiem de compromissos ambientais voluntários.


Entretanto, a crise energética “falou mais alto” e o parlamento europeu, na sessão de 14 de setembro deste ano, renunciou a algumas “crenças”, iniciando a flexibilização de dois pontos de sua Diretiva de Energias Renováveis ​​II (RED II).


Na prática foram “flexibilizados” os critérios de “adicionalidade” e “correlação temporal horária”, critérios estes considerados altamente restritivos para a uma indústria que começa a nascer.


Este senso de urgência, ficou fortemente evidenciado na fala do Eurodeputado alemão Markus Pieper, relator desta proposta no parlamento europeu, após o término da votação:


“Enviamos uma mensagem para a comissão, que você não precisa tornar a transição energética tão complicada, tão cara. Não precisamos de hidrogênio banhado a ouro. Precisamos de hidrogênio agora.


Outra movimentação importante da UE foi a criação do Banco Europeu de Hidrogênio Verde, que surge com um orçamento estimado de EUR 3,0 Bilhões e tem o objetivo concretizar a meta de produção de dez milhões de toneladas de hidrogénio renovável até 2030.




Figura 1 - Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia - Discurso State of the Union em 14-09-2022, anunciando a criação do Banco Europeu para Hidrogênio Verde.

Foto: Assessoria Imprensa Parlamento Europeu


Este movimento foi muito bem recebido pela Hydrogen Europe, uma associação europeia que abrange todo o ecossistema europeu de hidrogênio e células de combustível, possui mais de 400 membros, incluindo mais de 25 regiões da comunidade europeia e mais de 30 associações nacionais.



EUA:

Em uma ação voltada para combater um cenário de expansão inflacionária, o governo americano elaborou um projeto batizado de Inflation Reduction Act, prevendo atender demandas dos setores de saúde, do setor fiscal, agenda climática, energias renováveis e descarbonização do setor industrial.


Transformado em lei pelo Senado dos EUA, surge com um orçamento de US$ 700 bilhões sendo que deste montante, US$ 430 bilhões estão destinados exclusivamente para incentivar empresas e indivíduos a reduzirem emissões de gases de efeito estufa por meio da utilização de energias renováveis, que incluem o Hidrogênio Verde!




Figura 2 - Presidente Americano Joe Biden assina lei do Inflation Reduction Act.

Foto: Assessoria Imprensa da Casa Branca


Segundo o diretor de investimentos sustentáveis da Morningstar, Jon Hale, após a aprovação da lei, mais de 20 fundos de investimentos em energia limpa dos EUA conseguiram atrair entradas líquidas estimadas em US$ 433,6 milhões.


Ao facilitar o fluxo de capitais para esta nova indústria, flexibilizar normas e facilitar o acesso de novos entrantes, a indústria nascente de Hidrogênio Verde dos EUA se posiciona como uma clara ameaça às aspirações da União Europeia de dominar o mercado global desta commodity.



África:

Estimativas do Hydrogen Council, uma iniciativa global liderada por CEOs de 132 empresas ligadas à economia do hidrogênio, apontam que o mundo demandará, já em 2030, algo em torno de 140 milhões de toneladas de H2 Verde por ano.


Para o ano de 2040 a demanda vai girar em torno de 385 milhões de toneladas por ano, chegando a uma demanda global estimada de 660 milhões de toneladas por ano em 2050.




Figura 3 - Demanda Global de Hidrogênio Verde

Fonte: Hydrogen Council


Neste sentido, fica evidente que a produção de Hidrogênio Verde será distribuída e vai explorar o potencial e as regionalidades de todos os continentes do globo terrestre. Com o continente Africano não será diferente, e as análises de viabilidade técnica e econômica já tiveram início.


Divulgado em meados de 2022, o Relatório Inaugural da Consultoria Internacional PwC denominado: “Desbloqueando o potencial de hidrogênio da África do Sul”, aponta, de forma muito consistente, que a África do Sul tem um potencial renovável de classe mundial que pode ser aproveitado para fornecer energia limpa ao mundo.


Já no nordeste da África, o Egito anunciou durante a COP-27, um dos maiores e mais importantes projetos de Hidrogênio Verde do continente africano!


Trata-se de um projeto patrocinado por um dos maiores exportadores mundiais de fertilizantes, localizado estrategicamente junto ao Canal de Suez, de forma a se beneficiar o acesso marítimo, esta planta de Hidrogênio Verde será abastecida por um parque de energia solar e eólica que totalizam 260 MW de energia renovável.


Quando estiver em funcionamento, terá capacidade de gerar 15 mil toneladas de Hidrogênio Verde que serão destinados à produção de até 90 mil toneladas de Amônia Verde.




Figura 4 - Green Egypt Hydrogen - fábrica de hidrogénio no Egito

Foto: Scatec/DR


Dadas suas condições climáticas e geográficas, não há dúvidas de que investir no mercado de Hidrogênio Verde pode levar o continente Africano a ser um exportador mundial de energia verde, criando gigantescos ganhos financeiros e levanto esta região ao tão desejado desenvolvimento econômico.



Ásia e Oceania:

Sabe-se que China e Japão são os principais consumidores de combustíveis fósseis do continente asiático. Ambos países enxergam o desenvolvimento de aplicações do Hidrogênio Verde em suas indústrias como o caminho de superação desta dependência de mercados externos e, efetivamente, uma estratégia possível para descarbonizarem suas economias nas próximas décadas.


O Japão apresentou ao mundo, em 2014, o primeiro veículo comercial a hidrogênio, o Toyota Mirai (que significa “futuro” em japonês). Atualmente o país possui a maior rede de postos de abastecimento de hidrogênio do mundo – um símbolo da confiança do governo no futuro do hidrogênio e seus esforços para vencer a corrida para comercializá-lo.




Figura 5 - Linha de produção do Toyota Mirai, primeiro veículo comercial movido a Hidrogênio.

Foto: Assessoria Imprensa Toyota


Os movimentos do Japão pelo hidrogênio verde remontam ao choque do petróleo na década de 1970, quando foi amplamente pesquisado como parte de uma iniciativa de energia verde conhecida como Projeto Sunshine, que também incluía energia solar e eólica. Desde então, o governo vem investindo de forma constante na nova tecnologia. Este ano, por exemplo, o governo teve um orçamento de 70 bilhões de ienes para promover o hidrogênio. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês tem orçado 84 bilhões de ienes para o próximo ano fiscal, com desembolsos começando em abril de 2023.


Já o governo da China oferece subsídios de até 30 milhões de Yuans (cerca de US$ 4,45 milhões) por projeto em áreas como produção avançada de hidrogênio, armazenamento, transporte e instalações de reabastecimento de hidrogênio.


Adicionalmente, a China também financia pesquisas que visam reduzir o custo de equipamentos necessários à produção de Hidrogênio Verde, como é o caso dos eletrolisadores e das células de combustível chineses que podem ter um CAPEX até 30% mais baixo do que os atuais equipamentos existentes no mercado.


Fica assim evidenciado que a estratégia de ambos países está apoiada em altos investimentos públicos e privados com o objetivo de reduzir custos produtivos, alavancar a cadeia de fornecedores além de pesquisa e desenvolvimento em tecnologias inovadoras.


Parte desta demanda asiática será atendida pela Austrália que busca se posicionar como Hub de Hidrogênio Verde do mercado asiático. A Austrália possui um ótimo perfil para energia renovável, com índices consistentes de vento e radiação solar. Já existe um projeto anunciado batizado de Western Green Energy Hub (WGEH) - a instalação contaria com 50 GW de geração hibrida (solar e eólica) em uma área de 15 mil quilômetros quadrados destinados às instalações das plantas de hdrogênio na região sudoeste da Austrália Ocidental.


A expectativa é de que os combustíveis verdes produzidos no hub australiano atendam a demanda de diversos setores, incluindo a aviação, o transporte marítimo e indústrias pesadas, como siderurgia, química e mineração.



Brasil e América do Sul:

Do ponto de vista acadêmico, o Brasil desenvolve há duas décadas estratégias de P&D para o mercado de hidrogênio. Neste sentido cabe destacar o Programa Brasileiro de Hidrogênio e Sistemas Células a Combustível, lançado no ano de 2002 e o Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para Energias Renováveis e Biocombustíveis 2018-2022, ambos liderados pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).


No ano de 2022, os portos de PECÉM no Ceará, SUAPE em Pernambuco e AÇU no Rio de Janeiro, consolidaram-se como hubs nacionais de Hidrogênio, através de grandes esforços de governos locais que fizeram importantes movimentos para atrair investimentos privados. Outro importante anúncio que merece destaque é a Planta de Produção de Amônia Verde, anunciado por uma gigante do setor de fertilizantes no estado da Bahia.


Apesar dos esforços do setor privado, na esfera do Executivo Federal, ainda debatemos diretrizes e questões técnico/científicas do Plano Nacional de Hidrogênio (PNH2). O PDE 2031 possui um capítulo exclusivo para o mercado de Hidrogênio, ainda insistindo na produção de Hidrogênio “cinza” com utilização de combustíveis fósseis.


No Congresso Nacional, há 2 Projetos de Lei (PL 725/2022 e PL 1878/2022), ainda em tramitação inicial, que buscam iniciar um debate com vistas ao estabelecimento de um Marco Regulatório para o setor de Hidrogênio Verde no Brasil.


Enquanto isso, nossos vizinhos sul-americanos já perceberam a forte demanda de países desenvolvidos pelo Hidrogênio Verde e deram a largada.


O Ministério de Energia do Chile desenhou claramente a sua estratégia para o Hidrogênio Verde! O sol do deserto do Atacama e os ventos do Estreito de Magalhães, no extremo sul chileno, serão os responsáveis por gerar a energia renovável necessária à produção de Hidrogênio Verde. A meta chilena é chegar a 25 GW de capacidade de eletrólise até 2030.



Figura 6 - Mapa dos Principais Projetos de Hidrogênio Verde em desenvolvimento no Chile.

Fonte: Chilean Ministry of Energy


Já o Governo da Colômbia, apoiado pelo Banco Inter Americano de Desenvolvimento (BID), tem como estratégia desenvolver, até 2030, 3 GW de capacidade energética para alimentar eletrolisadores para produção de Hidrogênio Verde. O norte colombiano tem grande potencial fotovoltaico devido à sua proximidade com a Linha do Equador, sem grandes variações de irradiação solar durante o ano. Também foi criada uma lista com 66 itens de bens e serviços necessários à produção de Hidrogênio Verde, que podem ser elegíveis a incentivos fiscais.


Nos casos Chileno e Colombiano, fica evidente a atuação rápida e ágil do Poder Público como agente “orquestrador” na configuração dos seus Planos Nacionais para o novo mercado de Hidrogênio Verde.


Para o presidente eleito do Brasil, que toma posse em 2023, faz-se necessária uma visão sistêmica de como funciona o universo das energias renováveis, especialmente o mercado de Hidrogênio Verde, sendo fundamental inseri-lo na agenda dos gestores e agentes públicos do Setor Elétrico Brasileiro já no início do novo Governo.



O que esperar para 2023 ?

Em uma análise conclusiva, as estratégias dos países que tiveram sucesso em suas políticas para o Hidrogênio Verde, estão focadas na flexibilização de regulamentos restritivos, grandes investimentos públicos em P&D e incentivos governamentais para alavancar a indústria e fomentar a demanda.


Para 2023, o FMI traça um cenário de retração econômica global, e a grande questão será mensurar até quando, em um cenário econômico adverso, incentivos e subsídios públicos serão alocados em benefício do desenvolvimento da indústria de Hidrogênio Verde.


Por outro lado, o setor privado aguarda com grande expectativa definições sobre um Marco Regulatório para o setor que traga segurança jurídica para a realização dos altíssimos investimentos demandados por esta indústria.


Que tenhamos FORÇA e SABEDORIA para superar os desafios que surgirão nesta jornada de 2023.


Referências:



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