• Frederico Freitas

O tripé que sustentará o mercado de Hidrogênio Verde

Por Frederico Freitas


O ano de 2021 foi marcado por anúncios de grandes projetos e investimentos voltados para o mercado de Hidrogênio Verde no Brasil. Empreendimentos já anunciados como os HUB´s de Hidrogênio Verde no Porto de Pecém (CE), no Porto de Suape (PE) e no Porto de Açu (RJ) ultrapassam a cifra de bilhões de dólares de investimentos e aquecem o mercado brasileiro e mundial.


Descrito tecnicamente e produzido artificialmente pelo alquimista suíço T. Von Hohenheim (também conhecido como Paracelso, 1493–1541)[1] por meio da reação química entre metais e ácidos fortes, o Hidrogênio é o elemento mais abundante no universo, compondo 75% da matéria normal por massa do universo.


A maior parte do hidrogênio do nosso planeta está na forma de compostos químicos sendo este, o terceiro elemento mais abundante na superfície da Terra.


A indústria mundial, voltou os olhos para o Hidrogênio durante a primeira grande crise do Petróleo nos anos 1970, entretanto os altos custos de produção associados a melhorias na oferta de petróleo deixaram o uso deste vetor energético restrito a poucas aplicações industriais.


Mas afinal, se a descoberta do Hidrogênio ocorreu no século XVI e o mercado utiliza este insumo, em escala industrial, desde os anos de 1970. Por qual motivo somente agora ocorreu esta explosão de investimentos e novos projetos?


Podemos listar três fatores determinantes que impulsionaram este mercado nos últimos anos e falaremos, de forma resumida, sobre cada um deles:


1) Questões climáticas e retomada econômica pós pandemia da COVID-19


O Acordo de Paris firmado em 2015, estabeleceu objetivos de longo prazo de contenção do aumento da temperatura média global em no máximo 2ºC acima dos níveis pré-industriais, com o compromisso das nações de concentrar esforços para que esse aumento não ultrapasse 1,5ºC, valores que a comunidade científica global define como limítrofes para se garantir a continuação da vida no planeta sem alterações drásticas e disruptivas.


Ao longo de décadas os combustíveis fósseis, sustentaram o processo de industrialização mundial e foram os maiores responsáveis pelas emissões de CO2 e outros Gases de Efeito Estufa (GEE).


Para se alcançar os objetivos globais de redução dos Gases de Efeito Estufa (GEE) precisaremos, em última instância, alterar a forma como produzimos e consumimos energia.


É neste cenário que o Hidrogênio Verde, produzido através de energias renováveis, sem emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), ganha destaque e relevância. Como vetor energético apresenta diversas vantagens: é abundante na natureza, não é tóxico para o meio ambiente e sua molécula pode ser armazenada e transportada por distâncias continentais.


Embora ainda existam desafios tecnológicos e/ mercadológicos significativos, este vetor energético ganha destaque em um cenário “pós-pandemia”, promovendo a retomada econômica por meio da aceleração do processo de transição energética global.


O Hydrogen Council, que reúne CEOs de 92 empresas globais, estima que o Hidrogênio Verde responderá por quase 20% da demanda de energia no mundo até 2050, com um mercado estimado em US$ 2,5 trilhões e potencial de gerar 30 milhões de empregos.



2) Avanços Tecnológicos com reduções exponenciais de custos


Como forma de diminuir a dependência por combustíveis fósseis, a sociedade sempre buscou por tecnologias de produção de energia baseada em recursos renováveis. No caso do Brasil, destacamos o Progama Pró Álcool, que desenvolveu combustível à base de cana-de-açúcar e permitiu ao país se tornar o segundo maior produtor mundial de Etanol e o maior exportador do mundo.


Falando das Energias Renováveis Fotovoltaica e Eólica, o crescimento recorde da capacidade instalada mundial é fruto dos avanços tecnológicos ocorridos de forma exponencial na última década, provocando uma queda contínua e acentuada nos custos de produção.


O preço dos módulos fotovoltaicos tiveram uma queda de 80%, enquanto turbinas eólicas terrestres uma redução na ordem de 45%, isso desde 2010.

Dados estatísticos da International Renewable Energy Agency (IRENA), evidenciados na Figura 1, demonstram a queda contínua nestes custos. Tomando como exemplo sistemas solares fotovoltaicos, saímos de um custo nivelado de energia - Levelized Cost of Energy - (LCOE) de USD 0,381/KWh em 2010 para USD 0,057/KWh em 2020 uma queda a patamares de 85%.


Figura 1 - Global trends in renewable energy costs. Fonte: IRENA


Fica evidente que a queda de preços desencadeada pelos avanços tecnológicos é um caminho sem volta, e que a oferta de energias renováveis tende a ser abundante e com custos cada vez mais competitivos.


3) Questões relacionadas à nova Geopolítica Mundial


A consolidação de uma economia à base de Hidrogênio Verde tem grande potencial de moldar novas dinâmicas geopolíticas. A definição de rotas tecnológicas, diferentes cenários na cadeia de valor e domínio de processos produtivos podem criar um mercado global, distribuído e regionalizado.


Não foi este o caso dos combustíveis fósseis, onde os cinco maiores produtores mundiais de Petróleo (Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela) fundaram em 1960, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP)[2], controlando atualmente mais de 81% de todas as reservas mundiais desta commodity e ditando os preços globais do barril de petróleo.


No tabuleiro geopolítico atual, vivenciamos uma grave crise entre a Rússia e Ucrânia, que além de questões territoriais, étnicas etc., apresenta também uma questão energética muito sensível.


Nas pesadas negociações diplomáticas entre as partes, o suprimento de gás natural da Rússia para a Europa, sempre foi considerado como mecanismo de pressão para obter influência geopolítica sobre a Ucrânia e outros países do Leste Europeu.


Entretanto, a União Europeia e o restante dos países desenvolvidos despertam para uma nova realidade: O petróleo do mundo árabe ou o gás natural russo, grandes emissores de Gases de Efeito Estufa (GEE), perderão rapidamente, esta corrida para o Hidrogênio Verde que alcança custos altamente competitivos a cada dia que passa.


Não há dúvidas de que o Hidrogênio Verde influenciará a nova a geopolítica global e o comércio de energia. Este assunto é tão complexo que foi tema do Relatório Geopolitics of the Energy Transformation: The Hydrogen Factor produzido pela International Renewable Energy Agency (IRENA) e publicado em Janeiro de 2022.


Que a diplomacia mundial tenha sabedoria para mitigar os riscos geopolíticos e capitalizar as oportunidades de modo a construir sociedade global próspera e solidária.

[1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Paracelso

[2]https://pt.wikipedia.org/wiki/Organiza%C3%A7%C3%A3o_dos_Pa%C3%ADses_Exportadores_de_Petr%C3%B3leo


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