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  • Jefferson Noal Mattos

Blockchain: de bitcoin a transações ponta-a-ponta de energia elétrica

Por Jefferson Noal Mattos*


Na atualidade do setor de energia, os recursos energéticos distribuídos (REDs) abrem uma gama de novas tendências e possibilidades para o setor. O ciclo de energia que antes era visto somente como Geração -> Transmissão -> Distribuição, agora abre a possibilidade para a geração distribuída produzida por uma unidade consumidora ligada à distribuição (os chamados de prosumidores). Esse consumidor, por sua vez, poderia comercializar energia com sua rede de vizinhos através de microrredes, sem a necessidade de conexão à rede central. Mas afinal das contas, onde entra o blockchain no meio disso?


Com o crescente uso dos REDs, a possibilidade de comercialização entre unidades consumidoras pode trazer tanto economia no custo final da energia, como também uma alternativa para os excedentes de energia produzidos em uma unidade consumidora. Contudo, essa transação de energia (chamada também de transação ponta-a-ponta) necessitaria de uma rede para registro dos montantes vendidos e do valor pago, e é aí que entra a tecnologia blockchain.


Idealizada por volta de 2008, por um suposto pseudônimo chamado Satoshi Nakamoto, a blockchain originalmente buscou realizar os registros da moeda bitcoin - cada moeda era registrada em um bloco, e o bloco então seria validado na cadeia por meio de um protocolo de consenso. Uma vez validado, o endereço do bloco se ligava ao registro do bloco seguinte, de modo que uma alteração no endereço do bloco anterior levaria a uma mudança no bloco seguinte. Assim, qualquer tentativa de alteração em um bloco levaria a alteração do seguinte, que também alteraria o seguinte, e assim sucessivamente até o final da cadeia, invalidando-a e impedindo que os blocos fossem alterados.


Atualmente diversos protocolos de consenso são utilizados nas cadeias de blockchain pelo mundo, podendo variar de protocolos baseados em quebra-cabeças criptográficos para validação dos blocos, validações através de membros com maior quantidade de ativos investidos na rede, e até mesmo validações de blocos por uma única entidade, onde somente um nó é responsável pela validação dos blocos de todos os demais nós.


Até então usada para o registro de bitcoins, a literatura mostra que seu uso também pode se estender para transações de energia ponta-a-ponta. Nesse caso, um prosumidor ofereceria a quantidade de energia que deseja vender e um consumidor realizaria a compra - a transação ficaria registrada em uma blockchain, através de um contrato inteligente, que se validaria os pagamentos e transferências da plataforma. Dessa forma, essa transação ponta-a-ponta seria realizada com menor burocracia e maior eficiência.


Há potenciais aplicações da tecnologia blockchain também para financiamento de projetos de geração através de criptomoedas, validação e registro de atributos de sustentabilidade, registro de carga em carregamento de veículos elétricos, leilões de energia e muitas outras.


Contudo, muitos questionamentos ainda são levantados em respeito à segurança do sistema, regulação vigente e eficiência do processo. Dependendo do protocolo de consenso utilizado para validação de um novo bloco na plataforma, essa validação pode levar muito tempo, o que tornaria inviável seu uso para as transações ponta-a-ponta. Outros ajustes importantes para sua implementação são a utilização de medidores inteligentes para registro de energia e demais adaptações técnicas para adequação aos REDs, bem como regulação adequada para essas tecnologias e equipamentos.


Apesar dos desafios de implementação, nunca se estudou tantas metodologias para aplicação da tecnologia blockchain, fazendo com que o termo se torne cada vez mais conhecido e relevante em nosso setor elétrico.


Em uma iniciativa da ANEEL, os sandboxes tarifários (projetos para experimentação de novas modalidades tarifárias ou formas de faturamento) vem sendo estudados por alguns agentes de mercado. As distribuidoras CEMIG e CPFL já sugeriram projetos com o uso de blockchain, o que já representa uma pequena iniciativa de seu uso no setor. Ainda assim, muito deve ser discutido e modernizado para uma segura e eficiente utilização da tecnologia no setor elétrico.



* Jefferson é graduando de engenharia elétrica no Instituto Federal de Santa Catarina e aluno da Head Energia.

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