• Frederico Freitas

A certificação para produção de H2 Verde e a urgente necessidade de uma Norma Global Harmonizada

Por Frederico Freitas


O hidrogênio verde será o grande vetor energético responsável por conduzir a nossa sociedade a uma economia de baixo carbono, com o alcance das metas de redução das emissões globais de gases de efeito estufa previstos no Acordo de Paris.


Este insumo é considerado verde e renovável quando produzido por fontes renováveis, sem emissões de CO2 e outros Gases de Efeito Estufa.


Mas como é possível garantir ao comprador europeu de que o Hidrogênio Verde brasileiro ou de qualquer outra parte do mundo, de fato, usou energia renovável e seguiu processos produtivos livres de emissões de CO2 ?


Para solucionar esta questão, algumas iniciativas discutem parâmetros para certificação do Hidrogênio Verde, como forma de acreditar a produção sem emissão de CO2, além de ser fator gerador para que empresas e consumidores se beneficiem de compromissos ambientais obrigatórios e/ou voluntários.


De forma geral, os requisitos mandatórios consideram o uso de insumos de eletricidade renovável, balanceamento de massa como modelo de rastreamento, bem como a elegibilidade de todas as fontes de carbono, desde que não sejam produzidas deliberadamente para a produção de hidrogênio verde e seus derivados.


Pode parecer simples, mas atualmente existem onze iniciativas que discutem parâmetros para certificação do hidrogênio verde sustentável, cada regulamento apresenta a sua visão sobre os requisitos mínimos de acreditação, a saber:

  1. ISCC PLUS

  2. CertifHy

  3. Dena Biogasregister

  4. TÜV Süd CMS 70

  5. China Hydrogen Alliance’s Standard

  6. The Certification Scheme of the Japanese Prefecture Aichi

  7. The Australian Zero Carbon Certification Scheme

  8. The Funding Programme H2Global

  9. The Californian Low Carbon Fuel Standard

  10. The EU Renewable Energy Directive (RED) II

  11. The UK Renewable Transport Fuel Obligation


Na figura a seguir temos uma visão gráfica destas onze iniciativas internacionais:

Padrões Globais de Certificação de Hidrogênio Verde.

Fonte: German Energy Agency/World Energy Council

(dena/World Energy Council – Germany,2022)


Pela figura, fica claro que não será uma tarefa fácil estabelecer um Sistema de Certificação Único e Global para o mercado de Hidrogênio Verde.


Por exemplo, fazer a União Europeia suavizar de seus ambiciosos critérios de sustentabilidade, como a "adicionalidade" da eletricidade renovável para produção de hidrogênio verde, em prol de um sistema globalmente harmonizado vai demandar inúmeras rodadas de negociações.


No outro lado da mesa de negociações, diversos países tenderão a pressionar a União Europeia pelo fato desta fazer concessões aos integrantes de seu bloco econômico que utilizam fontes energéticas com altas emissões de CO2.


A França, por exemplo, é a maior defensora da energia nuclear, que responde por 70% da geração elétrica do país. Por lá, o Hidrogênio produzido pela fonte nuclear tende a ser considerado “sustentável”.


Já a Polônia entende que os países menos ricos da União Europeia necessitam investimentos privados em gás natural e energia nuclear para que possam abandonar o carvão mineral.


A permanecer uma fragmentação nas condições e requisitos de Certificação Energética para Produção de Hidrogênio Verde, com os principais atores desta rodada de negociações mostrando-se muito rígidos, existe o risco de que grandes produtores de optem por outros mercados com exigências mais brandas e mercado mais atraente, como por exemplo o mercado asiático.


Este movimento seria uma grande ameaça à ambição da União Europeia de exercer uma liderança em normas técnicas, regulamentos e definições sobre o hidrogênio verde renovável, conforme definido em sua própria estratégia.


Pode parecer uma questão meramente técnica, ou seja, discutir parâmetros de “adicionalidade” de energia renovável, quantificação das emissões de CO2, de gases de efeito estufa e etc.


Entretanto algumas questões merecem reflexão:


  • Tal sistema, plenamente harmonizado, é desejável do ponto de vista da política internacional?

  • Quais vantagens ou desvantagens traria para os interesses geopolíticos e/ou econômicos dos diferentes atores que integram esta mesa de negociações?

  • Os atores do mercado europeu, da américa do norte e decisores políticos do mercado asiático, incluindo o governo central da China, estariam dispostos a abandonar parte seus “critérios” de sustentabilidade em prol de um esquema de certificação globalmente harmonizado?

Na mesa de negociações, o jogo não está centrado somente na defesa de ambiciosos requisitos de sustentabilidade, quer seja pela visão da União Europeia, pela visão americana com o seu "tempero" californiano ou até mesmo pela ambiciosa visão de coletividade global do Japão.


É importante registrar que diferentes requisitos e marcos regulatórios para a certificação energética de hidrogênio verde renovável tem impacto direto nos custos de produção, armazenamento, logística, transporte etc.


Um relatório do Goldman Sachs Group, Inc., grupo financeiro multinacional sediado nos Estados Unidos, aponta que o hidrogênio verde tem o potencial de movimentar globalmente US$ 5,0 trilhões até 2050.


Com a produção que demanda recursos naturais renováveis (sol, água e vento), abundante em regiões como o nordeste do Brasil, África subsaariana e outras áreas localizadas geograficamente próximas à linha do equador, o hidrogênio verde renovável pode retirar influência estratégica e/ou energética de nações desenvolvidas.


Talvez a existência de onze marcos regulatórios para certificação energética de hidrogênio verde sustentável seja uma técnica para “burocratizar” o processo de construção desta convergência global - adotada por países desenvolvidos que não terão grande relevância como produtores neste novo mercado.



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